O Visconde da Corujeira não apareceu. Esteve o grupo dos ousados à espera, a fazer horas, à sombra da Araucária de Norfolk... e nada... A manhã estava fresca ainda, mas não iria manter-se assim, pelo que seria conveniente iniciar a caminhada para se juntarem ao grupo dos sensatos, aquartelado cinco quilómetros adiante.

O percurso estava integrado na chamada Rota dos Moinhos, embora esta denominação não tivesse parecido a mais adequada, porquanto não se vislumbraram os ditos! Cães a ladrarem aos caminhantes, de dentuça aguçada, muitos, campos de milho verdejante, imensos, hortas bem cuidadas e regadas. Ali vendiam-se ovos frescos, coelhos e galinhas, tudo caseiro e a bom preço! Mas havia mesa reservada para o almoço em restaurante, portanto... Mais adiante o início da ecovia, a retirar o grupo destas paisagens agropecuárias para o embrenhar na quietude do Lago, as suas margens silenciosas cheirando a fresco, a hortelã, a húmus. Agora sim, o caminhar era o prazer só por si, genuíno e total, não obstante as bolhas nos pés de uns e as parcas horas de sono de outros.


Serpenteando o trilho ao longo da Lagoa o grupo avançava. Patos deslizavam com leveza e elegância nas águas imóveis. Um deles descansava deitado nas folhas secas. Adiante, um pescador mergulhava paciência na ponta do anzol. E de repente, sem se perceber como, viu-se o grupo dos ousados no Sítio do Cartaxo!! Um conceito profundamente ecológico sem dúvida, mas... sem Centro de Interpretação!! E como ali não se vendiam caracóis, nem bifanas, nem tostas mistas, nem moelas, nem pataniscas e nem sequer minis... o grupo avançou.

Mais um quilómetro e uns... mil metros através de uma floresta de pinheiro bravo, enraizada nas dunas e surge o grupo dos sensatos, eufórico por ver a sua espera terminada. E logo ali, na beira da estrada, foi pomposamente servido um catering para conforto de todos, aliviando o desgaste da marcha de uns e o calo na paciência de outros.

O grupo, agora revigorado e reforçado segue caminho para mais quatro quilómetros, ao lado da Vala da Cana, a que embala água desde a Lagoa e a despeja na Barrinha da Praia de Mira, essa imensa bacia natural de água doce, tão rica em biodiversidade, em desportos náuticos, em beleza natural. Dois dos caminheiros ficaram aí à sombra, as mazelas de uma tocaram o coração de outro...

No final foram dez quilómetros? Foram nove quilómetros? Não há consenso na quilometragem, mas há unanimidade em estugar o passo até ao Sabores da Praia. Mas calma, colegas! Ninguém começa a almoçar sem o nosso encenador! Temos que estar todos, à mesa como no palco! Ninguém come sozinho, ninguém está em cena sozinho...




