Opinião: CHUC – Será que vai ser diferente?

2017.05.18

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(Joaquim da Silva Viana, Médico), em Diário As Beiras, de 17.05.2017


O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) tem uma nova administração. Em nossa opinião, para existir um corte com o passado recente quatro pontos têm de ser abordados com determinação.

Primeiro: No CHUC pode ser encontrado praticamente tudo o que está comprovado como o mais avançado para as diversas patologias. O reconhecimento nacional de muitos setores da instituição não pode ser manchado por áreas de má qualidade ou desempenhos individuais inapropriados. Assim, é necessária uma cultura que defina, para cada doença, quais os valores que se consideram bons resultados e quais as complicações que se podem aceitar. Para além destes aspetos estatísticos, deve fazer parte da cultura organizacional a análise cuidadosa dos resultados individuais adversos, pois para quem procura o hospital não são importantes os indicadores estatísticos mas a forma como ela própria é tratada, sendo necessário garantir cuidados de excelência independentemente do Serviço hospitalar, dos profissionais envolvidos ou dos atos requeridos.

Segundo: O capital humano é a maior riqueza de uma instituição. Esta afirmação tem de deixar de ser um lugar comum, quase vazio de sentido, sendo necessário abordar os problemas de desorganização que conduzem à ineficácia, ao desperdício e ao desgaste e cansaço dos profissionais. Todas as responsabilidades, das mais pequenas às maiores, têm que ser personalizadas para que, em cada falta de materiais ou medicamentos essenciais, ausência de meios básicos para a segurança no trabalho ou inaceitável desperdício de tempo ou bens de consumo se saiba quem é o responsável, acabando-se com a desresponsabilizante desculpa da “ineficiência crónica do sistema”.

Terceiro: Promoção da Investigação Científica, “Cluster” da Saúde ou Translação do Conhecimento não podem ser apenas palavras sonantes para planos que pouco passam da declaração de intenções. Uma posição nacional de liderança impõe que todas as especialidades médicas tenham não só objetivos anuais e plurianuais para a sua produção assistencial como também para os seus resultados nas áreas da Investigação e Desenvolvimento, sendo esse aspeto contemplado na gestão de recursos humanos e na distribuição do tempo dos seus profissionais.

Quarto: No passado recente, o CHUC foi o hospital do país que mais enviou doentes das listas de espera cirúrgicas para instituições privadas. Esse envio tem enormes custos financeiros, pois sai na sua quase totalidade do orçamento hospitalar e não do poder central. Retirar o CHUC desse top que envergonha qualquer instituição é igualmente importante pelos ganhos imateriais, pois não apenas dará uma imagem de eficácia como também de seriedade de procedimentos, já que obriga a uma análise cuidadosa dos conflitos de interesse no interior da instituição, análise essa que é um elemento essencial para a credibilidade de uma administração.

O facto de Coimbra ter um centro hospitalar com o tamanho e missão do CHUC pode ser um fator importante para inverter a decadência da cidade comparativamente às capitais de distrito mais próximas. Resta saber se vai haver a vontade e a coragem política para lidar com os interesses instalados e criar uma nova cultura hospitalar. Para bem dos doentes e da cidade, esperamos sinceramente que sim.